MORTES EM VIDA
PRIMEIRO ATO
DROGAS, PARA QUÊ?
NARRADOR: Numa sociedade como a que vivemos hoje, essa história a qual iremos assistir, pode acontecer com qualquer um de nós, o importante para que isso não aconteça é dizer a seguinte frase: DROGAS! NEM MORTO.
NARRADOR: Caroline é uma adolescente problemática, ela tem apenas 14 anos e há vários meses sai com um grupinho que eles mesmos se denominam "DA PESADA". Hoje são 18 horas e seus amigos chegam mais uma vez à sua casa para saírem, provavelmente chegarão no dia seguinte.
(neste instante chegam a casa de Caroline a Daby e o Carlos).
DABY: Oi, Carol, belezal?
CAROLINE: Oi, Daby, oi Carlos belezal, vamos lá?
CARLOS: Vamos lá, Maria e Beto Jabá já estão na parada.
CAROLINE: Falô, mano, vamos nessa!
NARRADOR: Hoje, aproveitando que os pais da Daby viajaram, eles foram para a casa dela e a festa não tem hora para acabar...
(no caminho)
DABY: Aí vei, tá tudo nos conformes, hoje vai ser da hora em mana!
CAROLINE: É isso aí; Vida! Agente só tem uma, né não, vei?
CARLOS: Falô e disse Carolzinha, vai ser dez...
(chegando na casa de Beto Jabá, Daby e Maria já se encontravam no local. Vendo que chegaram atrasados, diz se dirigindo a Caroline).
MARIA: Carol, mana, pensei que você ia amarelar, já tava preocupada, aí.
NARRADOR: Neste clima de liberdade geral, as horas se passaram, bebidas alcoólicas, cigarros e muita profanação corporal, são ingredientes perigosos na vida desses adolescentes.
CARLOS: Aí Carolzinha, você ainda nem me fez carinho, gata.
CAROLINE: Não esquenta, mano, vamos lá pro quarto da mãe da Daby, aí.
CARLOS: falô e disse gata.
DABY: Maria, Carol, Beto Jabá! Carlos, Carol! Maria chama a Carol e o Carlos! Aí, que dor de cabeça!
CAROLINE: Putisgrila. Vai dar dez horas, mano, tô ferrada, tô indo galera, ai que dor de cabeça! Até mais, galera.
DABY: E nós, vamos pra cachoeira?
TODOS: Vamos nessa!
NARRADOR: Certamente mais uma vez os pais de Caroline não perceberão que ela
dormira fora, contudo, ela tem que chegar em casa antes do pai chegar do roçado...
Durante anos isso aconteceu, agora já são todos viciados em alguma droga: álcool,
cigarro, cola de sapateiro, etc. Num desses dias Caroline está em casa e chega Carlos:
CARLOS: Carol.
CAROLINE: Aí mano vei, belezal?
CARLOS: Que nada Carolzinha, tô precisando pular fora aí, me empresta uma grana, Gata.
CAROLINE: Grana pra que vei?
CARLOS: Discola aí, vai!
CAROLINE: Só tenho isso, serve?
CARLOS: Valeu, valeu. Eu sabia que você não ia me decepcionar, princesa, brigadão pela força, falô.
NARRADOR: Carlos saiu de lá e não voltou mais... Caroline já deduzindo que Carlos corria perigo, ela também não tendo com quem desabafar, sente-se só, no fundo do poço, depois de muito andar para lá e para cá, resolve que vai abrir o jogo com o pai e espera, apreensiva na sala, que ele chegue do trabalho.
(De repente mal vestido e de enxada a tiracolo)
FRANCISCO: Severina, ó Severina, Maria Caroline onde que tá Severina?
CAROLINE: Pai. Quero falar com tu.
FRANCISCO: Ô Severina, nossa tô todo quebrado!
SEVERINA: Ô homi vexado, o quê tu que homi?
CAROLINE: Pai. É urgente!
FRANCISCO: Severina, guarde a enxada que eu vou lá em cumpade Zé.(se dirigindo a Caroline), Maria Caroline, minha filha, agente precisa de conversar, você não pode ficar reprovada outra vez, mas agora eu não posso. Depois agente se conversa.
(Caroline entristecida em baixo tom)
CAROLINE: Sim, pai.
(Caroline desmaia, tudo acontece tão rápido, infelizmente seu pai já haverá saído... Entra Severina)
SEVERINA: Maria Caroline, minha filha, o que é que você tem? Maria Caroline fala com eu! Alguém me ajude!
NARRADOR: Joana, uma enfermeira amiga de Caroline acabara de chegar a procura dela.
SEVERINA: Dona Joana, que bom a senhora por aqui, me ajude, a Maria Caroline desmaiou.
JOANA: Caroline desmaiou? Cadê ela, cadê seu Francisco?
SEVERINA: Francisco saiu.
(Joana ao chegar perto de Caroline ela já tivera tornado em si)
JOANA: Caroline, nós precisamos conversar mesmo, eu trouxe o resultado do seu exame, como sua amiga, tomei a liberdade de abri-lo, veja você mesma.
(cria-se um clima de suspense... Caroline abre e passa mal).
CAROLINE: Não pode ser verdade, deu positivo! Ai meu Deus!
JOANA: Calma Caroline, fique calma, olhe, tome esse comprimido e você vai melhorar, tome.
NARRADOR: É, depois de muitas farras, Caroline está passando pelas conseqüências.
JOANA: Agora fique calma, eu tenho que ir, assim que puder eu volto, certo.
CAROLINE: (desesperada) Como você quer que eu fique calma, eu tô com AIDS, eu vou morrer!
(Severina entra, Joana dá-la o comprimido e sai).
SEVERINA: Caroline, minha filha, tome, olhe aqui a água... (Caroline toma a água). Ótimo. Caroline você reconhece esta letra?
(Voz de Carlos! Caroline, te amo...)
CAROLINE: Esta é a letra de Carlos, quem entregou, Severina?
SEVERINA: Caroline sente-se aqui, você vai ter que ser mais forte, por favor, se sente.
CAROLINE: Aconteceu alguma coisa com ele, o que foi, Severina, mim diga, diga, diga logo muier!
SEVERINA: Caroline, quem trouxe este bilhete foi um policial, Carlos morreu asfixiado com cola de sapateiro, a policia encontrou o corpo dele num banheiro público.
CAROLINE: Mentira, mentira, como isso
pode acontecer. Não, não é verdade!
SEVERINA: Segundo informações, a mãe dele descobriu que ele gastava todo o dinheiro com drogas e escondeu o dinheiro dele. Não adiantou, alguém lhe deu o dinheiro suficiente para comprar cola.
(fundo musical, Caroline sofre intensamente)
NARRADOR: Isso foi o fim da picada, nunca que Caroline podia imaginar isso...
CAROLINE: Isso é demais! Eu não agüento, Deus! Mim ajude! (aos prantos). Não é verdade, tudo num só dia... Eu quero tomar alguma coisa quente, eu preciso tomar!
SEVERINA: (chorando) Calma filha, calma, seu pai vai lhe ajudar, não temos nenhuma bebida alcoólica, se acalme Caroline!
CAROLINE: Álcool, eu quero álcool, álcool serve.
SEVERINA: Chegue minha filha, sente aqui, chegue (Severina puxa ela) descanse. (fundo musical para acalmar)
NARRADOR: Felizmente o remédio fez efeito e Caroline adormeceu no chão.
(Fecham-se as cortinas).
(Fim do primeiro ato)
SEGUNDO ATO
CLAMOR PELA VIDA
(Abrem-se as cortinas, inicia-se a meia luz com Caroline rezando)
CAROLINE: Deus, Jesus, eu nunca conversei contigo. É estranho dizer estes nomes: Deus, Jesus, mas eu não tenho ninguém, tu és minha ultima esperança, último refúgio que mim resta. Me ajude oh senhor! (diz isto clamando e antes que termine...)
JORGE: Boa tarde minha amiga, falando sozinha?
CAROLINE: Oh Deus agora sei que tu existes, obrigado senhor!
(se dirigindo a Jorge) Quem é você?
JORGE: Meu nome é Jorge, ia passando e percebi sua aflição.
CAROLINE: Você me parece amigo, eu vou lhe contar o que aconteceu comigo...
(fundo musical)
CAROLINE: Entendeu o que estou passando?
JORGE: Como eu lhe disse, Caroline, eu sou membro da Pastoral da Juventude e o nosso sonho é fundar na cidade um grupo de AA, mas, não temos apoio nem da própria população. Estou indo a um encontro com o representante do AA da cidade vizinha, boa sorte minha amiga, nós nos veremos por aí.
NARRADOR: Caroline apesar de estar com a doença em estado avançado, aprendeu a amar a vida de uma forma sem igual, alguém lhe ouviu, lhe deu esperança, ela resolve fazer algo: (ela sai na rua pedindo)
CAROLINE: Moço me dê uma ajuda para a construção de um salão do AA.
MOÇO 1: Vai arranjar o que fazer, vagabunda.
CAROLINE: Moço me dê uma ajuda para a construção de um salão do AA.
MOÇO 2: Vai trabalhar maconheira, cria vergonha.
CAROLINE: Moço mim dê uma ajuda para a construção de um salão do AA.
(homem alto, vistoso, cospe em Caroline)
CAROLINE: Meu senhor isso eu mereço, mais me dê uma ajuda! Nesta cidade pequena, eu conheço o seu filho, me ajude a ajuda-lo e fazer com que ele não chegue onde eu cheguei; ajude-nos salva-lo!
(O homem sem ação disse o que tinha e saiu com a cabeça baixa. De repente Caroline cai, faz-se uma roda de curiosos, mas ninguém ajuda).
CAROLINE: Alguém mim dê um lápis, ligeiro, eu preciso de um lápis.
(Alguém lhe dar um lápis e enquanto ela escreve sua voz aparece em som ambiente).
VOZ AMBIENTE DE CAROLINE: Sei que tô morrendo. Entrei nas drogas por um monte de razões: Não tinha um pai ou mãe que conversasse comigo, eu tinha curiosidade, alguns amigos faziam, eu também comecei. É, eu não tinha descoberto o valor da vida. Muito tempo depois de iniciar nessa vida, descobri que estava com HIV, a minha morte era questão de tempo, o alcoolismo foi o fundo do poço. Há se alguém me avisa antes. Diga aos jovens que não se matem, por favor, diga aos jovens que...

Jocélio Coutinho

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